Prometi a parte 2 do texto "Quanto tempo você consegue ficar na indecisão?". Mas eis que surgiu um tema mais urgente. Para mim, óbvio!
Envolvida pelo inspirado texto de Gustavo Gitti em seu blog nao2nao1.com.br (http://nao2nao1.com.br/meu-corpo-sobre-a-beleza-ou-breve-ensaio-sobre-a-estetica-nos-relacionamentos-parte-1/), decidi escrever sobre uma experiência que fiz na brincadeira, mas que se tornou marcante diante dos meus sentidos sobre a vida: o teste do ceguinho.
Este teste consiste em experimentar, na prática, um outro sentido que não a visão por um certo tempo. Em um passeio da sala de aula até a biblioteca da Universidade, decidi fechar os olhos e seguir todo o caminho experienciando os outros sentidos como a audição, o olfato e o tato.
O resultado foi uma vontade de passar mais tempo naquela condição.
De repente, não era mais a beleza das coisas ao meu redor que me atraía, e sim a tonalidade e a entonação da voz do ambiente por onde ia sendo guiada. Prestei mais atenção, então, às variações entoantes das palavras e no timbre das vozes. Percebi que a voz do amigo que me guiava era mais grave do que eu costumava perceber.
A voz das pessoas parecia mais real, mas próxima de mim. Ouvir pareceu bem mais fácil e gratificante, pois agora eu não tinha a visão para me distrair da conversa. Conseguia entender as pausas, as respirações e o tempo da fala.
Foi realmente uma experiência incrível. Enquanto caminhávamos, percebi o som dos passos dos transeuntes que passavam por nós. Sinceramente, nunca tinha reparado no som das caminhadas das pessoas. E elas dizem muito.
Denunciam a pressa quando alguém pisa forte e em passos rápidos; a calma quando passa devagar; o desprendimento quando pisa fora de ritmo e em batidas diferentes; a ansiedade quando uma perna balança freneticamente no mesmo lugar ou quando as passadas batem rápido numa circunferência interminável.
Descobri que existem inúmeras maneiras de caminhar e o jeito particular de cada um passar uma perna e depois a outra dizem muito sobre quem você é hoje.
O teste do ceguinho abriu as portas dos meus sentidos secundários que andavam ofuscados pela ditadura da visão. Afinal de contas, os seres humanos são 70% visuais. Por isso, somos escravos da imagem padrão dos signos perfeitos, da forma ideal das coisas e que podem ser as mesmas que não agradam ao tato ou ao paladar quando vistas na intimidade. Sim, porque abraçar uma pessoa magérrima (sem ofensas a quem é magro por natureza!) que está nos padrões de beleza atuais não é tão bom quanto apenas vê-la na foto do facebook. A textura dos cabelos alisados e tingidos não é sentido na estampa dos outdoors, mas sua beleza, vista de longe, é impecável, digna de inveja.
Sugiro, apenas, que a vida avance os limites da quarta parede de Bertold Brecht e se deixe conhecer pelas sensações de ser tocado por perspectivas distintas de vida, possibilitando novas visões de mundo.
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